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Ternura da Serra

Deslizo o meu olhar, Por essas curvas, Como sinto o tocar, De tão ternas rugas; De contornos diversos, Mais do que um esboço, Um traço de afetos, Desenha-se um rosto; Contempla seriamente, Recantos com história, Contemplados serenamente, Pelos tempos da memória; Cores, cheiros e formas, Escaras, sinais e feitios, Unem como nas somas, Os divinos e os gentios; Sente-se a comunhão, Em enleada simbiose, Dois estranhos dão a mão, Numa cúmplice hipnose; E se a tela deixa o pincel, E se as cores secam na paleta, E se o lápis abandona o papel, E se a borracha faz que esqueça; Aqueles dois amantes, Descobrem-se no olhar, Os corações distantes, Anseiam por se encontrar; E de novo se tocam, Sentem-se as velhas curvas, E enquanto se recordam, Sentem-se as novas rugas; Cai o manto branco, Escondem-se as verduras, Como no altar o santo, Acolhe as almas suas; Cantam um único fado, Nessa reunião fraterna, Ca...

(Devaneios serranos) - As luzes já não servem

As luzes já não servem… Por entre os montes e vales, trilhos que serpenteiam encostas, rios que lavram desfiladeiros, lugares esquecidos nas memórias de uns e descobertos pelo espírito aventureiro de outros, facilmente por uma dúzia de metros nos perdemos conscientes por meia-dúzia de quilómetros. E assim, como o falcão do alto dos seus voos avista as suas presas, também aqui do alto de tão privilegiado pouso deixo os meus olhos voarem até ali, acolá e além perdendo-se nos detalhes da serra, reencontrando-se nas imperfeições do horizonte. Incansavelmente palmilham cada centímetro de tão vasta paisagem como que à procura de algo, não se sabe bem o quê, que por lá ficou em algures sem que se saiba exatamente onde. Tamanha vastidão que tentamos embarcar num só olhar, arrasta-nos na sua magnitude tão sufocante que nos leva após tal contemplação a emitir um inconsolável suspiro – pelo menos em mim produz esse efeito – reflexo da nossa impotência perante tão potente grandeza. T...