Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Sentimentos

O OUTONO

            Chegou o Outono, a terna estação que nos conforta do êxtase do verão e nos afaga a alma para a austeridade do inverno. És conciliador, és moderado, és a força da juventude e a beleza da idade. Os verdes revigoram-se no dourado brilho do sol, no seu crescente crepúsculo, sorrindo para um novo ciclo de esperança, acenando saudosos para um novo amanhã. Os castanhos, esses, agora aveludados, nas suas rugas se engelham com a expressão madura da tolerância, o olhar suave dos tempos fixado num horizonte ao entardecer. És tu Outono, ponderado e mediador nesse equinócio que restabelece a temperança do equilíbrio entre a intensidade da luz e a extensão da sombra, pois se no breu nada se vê, também na claridade excessiva pouco se enxergará. Tu, Outono, és o raio que intercala as nuvens, que irrompe a nébula e nos promete a vida. És o desassossego quando o chilrear dos pássaros se volta a confundir com os sons das crianças, desses espíritos livres que ...

Batel "D'avida"

No silêncio da saudade Como o apito que alenta, Finco-me ao leme da verdade, Perdido nas voltas da tormenta; Sem madre que me guarde, Sigo a bolina da sorte, Sem vela que afague E lágrimas de espuma enxugue; Erro nos segredos do teu manto, Entre os dedos escorregam teus cabelos, Preso pela paixão dum pranto Agarro-me à âncora dos medos; Ergo o mais alto mastro, Esqueço a terra sentida, Já de porão basto Oiço o sino da partida; E de popa tocada Pelo fado chorado, Levo na memória salgada, A tua culpa, perdoado! por Filipe Cortesão 0707EZ20

PORTUGAL DOS ISMOS

         Atualmente assistir e compreender determinados ciclos da sociedade, com o fácil acesso à informação, torna-se mais rápido e encontra-se ao alcance de todos nós. Compreender os fenómenos na origem desses períodos comportamentais já poderá ser tarefa de menor alcance e apenas possível a alguns de nós. Desafia-se assim uma reflexão, a cada um dos leitores, no intuito de intimamente procurarem identificar alguns dos caprichos cíclicos que interferem com o seu dia-a-dia, direta ou indiretamente.             Podemos chamar a esses cismas e frenesis, tão somente de “ismo” ou “ismos” e transportá-lo no bolso das calças, como que uma pequena pedra, alcunha alentejana, nome do meio, praxe, clipe, ou mero acessório de fácil recurso, um isqueiro, para aplicar sem dó nem piedade aos vícios adjectivantes que deixam cada um de nós perplexo com as teimosias sociais que nos ferem o espírito do...

Ternura da Serra

Deslizo o meu olhar, Por essas curvas, Como sinto o tocar, De tão ternas rugas; De contornos diversos, Mais do que um esboço, Um traço de afetos, Desenha-se um rosto; Contempla seriamente, Recantos com história, Contemplados serenamente, Pelos tempos da memória; Cores, cheiros e formas, Escaras, sinais e feitios, Unem como nas somas, Os divinos e os gentios; Sente-se a comunhão, Em enleada simbiose, Dois estranhos dão a mão, Numa cúmplice hipnose; E se a tela deixa o pincel, E se as cores secam na paleta, E se o lápis abandona o papel, E se a borracha faz que esqueça; Aqueles dois amantes, Descobrem-se no olhar, Os corações distantes, Anseiam por se encontrar; E de novo se tocam, Sentem-se as velhas curvas, E enquanto se recordam, Sentem-se as novas rugas; Cai o manto branco, Escondem-se as verduras, Como no altar o santo, Acolhe as almas suas; Cantam um único fado, Nessa reunião fraterna, Ca...

RETRATOS-OS-MONTES

            Essa pincelada cor de alcatrão que serpenteia de forma confusa profundos montes e altos vales segue uma direção, incerta, como uma ruga num terno rosto. Desperto-me a segui-la, num estado hipnótico, a sua silhueta sem fim, as suas demasiadas curvas e o enlevo que causam em mim! Talvez nem sejam as curvas, talvez nem seja o jeito do pintor, talvez… Talvez seja somente a força que a curva, a rude tela que a suporta, o olhar que a ignora.             Segue, continua seguindo, presa a um só destino, cobrando a todos que nela se aventuram esse seu castigo. E forçado à sua vontade num sentido só, sigo, sigo por vários caminhos sem que ela o descubra, sigo no silêncio por lugares distantes tão distantes quanto a memória.             Devaneio percorrendo contornos vários, luzes e sombras, encontro o horizonte ocu...

(Devaneios serranos) - As luzes já não servem

As luzes já não servem… Por entre os montes e vales, trilhos que serpenteiam encostas, rios que lavram desfiladeiros, lugares esquecidos nas memórias de uns e descobertos pelo espírito aventureiro de outros, facilmente por uma dúzia de metros nos perdemos conscientes por meia-dúzia de quilómetros. E assim, como o falcão do alto dos seus voos avista as suas presas, também aqui do alto de tão privilegiado pouso deixo os meus olhos voarem até ali, acolá e além perdendo-se nos detalhes da serra, reencontrando-se nas imperfeições do horizonte. Incansavelmente palmilham cada centímetro de tão vasta paisagem como que à procura de algo, não se sabe bem o quê, que por lá ficou em algures sem que se saiba exatamente onde. Tamanha vastidão que tentamos embarcar num só olhar, arrasta-nos na sua magnitude tão sufocante que nos leva após tal contemplação a emitir um inconsolável suspiro – pelo menos em mim produz esse efeito – reflexo da nossa impotência perante tão potente grandeza. T...