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O ERRO DOS RECURSOS HUMANOS

              As conceções contemporâneas e designadamente as importações extemporâneas, ou até mesmo exóticas para algumas realidades, têm conduzido a alguns mismatch na praxis , a uma divergência crónica entre o expectável e o real. Naturalmente muito se poderia aqui encaixar, despertando-me para o efeito, especial atenção, o erro dos recursos humanos. Se o erro, como irei expor, terá raízes mais profundas, também à superfície adivinhamos desde logo na aceção de Recursos Humanos a inquinação deste mesmo conteúdo. Algo de valor superior, que atenta ao valor humano, o alento das organizações, falo naturalmente do espírito e dote genuíno de cada homem e mulher, pois do que seria das organizações se delas, por elas ou para elas excluíssemos a vocação humana? É precisamente aqui, ou melhor dizendo, nos recursos humanos que encontramos o então calcanhar de Aquiles, quando é retirada a essência desta conceção e se instrumentaliza, isto é, tr...

A ENXADA VELHA

  No lugar onde vivo, terra de gentes do campo, dois homens, de imortal saúde, dedicam-se à arte agrícola. Desde os seus 10, 11 anos, talvez, idade que os calos e as rugas já deixaram de precisar, cada um em sua bicicleta, emprestadas por seus pais, senhores da pastorícia e da lavoura, como dois irmãos, pedalavam de aldeia em aldeia. Pouco mais ofereciam que a moldura de um corpo pronto a ser talhado, na dureza dos tempos, e as mãos tenras que se esculpiam nos caprichos da natureza. Prometiam outros feitos mas prometidos aos afetos, da experiência, confiou-se-lhes fiel amiga, a enxada, a que juraram eterna obediência. Apenas ela os separava, e apenas ela os unia, à mãe das mães, à filha de uma vida. Nasceram premeditados e de contrato com o destino já assinado, restava-lhes cumprir, religiosamente, cláusula única, igual à de tanta outra gente. Deitados à mesma sorte, sem nunca o prejuízo contar, de olhar benjamim, o mesmo que conservam, além dos anos, revela o tímido sorriso qu...

IDEOLOGIA DA IGNORÂNCIA

 (Dirigido à redação do Diário de Coimbra, e posteriormente publicado) Exmo. Sr. Diretor, Escrevo-lhe como desabafo, como manifestação da minha preocupação. Também não espero que a apazigue, antes sim que a compreenda. E então já seremos dois. A união faz a força… era o que se dizia! E será assim, com essa mesma força que vamos livremente fundar uma ideologia, de bem ou de mal, sim, percebeu corretamente, de bem ou de mal. Se de bem é meritória, se de mal aperfeiçoamo-la. Pois o bem e o mal são coisa nossa, de homens e mulheres, e não de ideologia alguma. Se os maus lhe chamarem de boa, convertamo-los, se os bons a chamarem de má, acolhamo-los. E aqui descanso em paz!                Fundámos assim uma ideologia, chegámos primeiro, antes que ela se fundasse em nós. Para tal era necessário que não fossemos nem de bem nem de mal, sempre é melhor sermos alguma coisa que coisa alguma. Pois em quem não é coisa algu...

PORQUE CHILREIAM AS CRIANÇAS

     O rebuliço encorpava o frenesi atípico, dos corredores de uma acácia, cujas flores amarelas se douravam pelo incidente betar que brotava por entre a sedosa pincelada, de um cirro alvo, no céu azul aguarela. Era dia vinte e um de março, esperava-se o toque de uma campainha piedosa, pelas quinze horas de uma sexta-feira, a convocatória extraordinária, redigida à pressa, chegara por pombo-correio, com a mesma urgência que aquele inaudível apelo, inteligível à inocência, chegava de um recreio ansioso, no silêncio.       Uma convulsão ritmava, a conjuntura arboral, ao compasso do baloiçar de pernas, um palpitar passeriforme do coração, o pensamento sem aljube, encarcerado no horizonte distante do olhar, escutando a constituição de uma regra sem regras que transcende o folheado reboco, à contagem de cada segundo, afinado pelos intervalos de uma titilante liberdade que numa certeza, apenas sua, parece que se vai e que depois vem. Na realidade, nunca foi,...

HÁ NÓDOAS E NÓDOAS

  Fim do dia. Já escurecia, um fim de dia que não podia ficar por ali. Havia uma qualquer inquietude naquele sentimento de vazio, faltava uma cartada que o tornasse pleno, o deixasse preenchido. Ir para casa estava fora de questão, seria um capítulo por terminar e uma injustificável insatisfação por tão abrupto término. Decidi jantar por fora, deslocar-me a um restaurante, um que fosse singelo, não queria exacerbar aquele momento culpando assim o estado anímico daquele dia, nem diminuí-lo à apatia que o dominara. Numa pequena travessa de uma rua esquecida no tempo, assemelhando-se mais a um beco sem saída, guardava em si um escape tão esperançoso como uma luz ao fundo do túnel e aí entrei, atrás dum nostálgico aroma, na casa de pasto Palus Mandatum . No interior dominava o crepúsculo, um silêncio comprometedor, arrebatado talvez pela viagem olfativa. As cores pastéis e o lusco-fusco pincelados, escondiam naquele vislumbre pitoresco alguns rostos e silhuetas que também ali se enco...

Batel "D'avida"

No silêncio da saudade Como o apito que alenta, Finco-me ao leme da verdade, Perdido nas voltas da tormenta; Sem madre que me guarde, Sigo a bolina da sorte, Sem vela que afague E lágrimas de espuma enxugue; Erro nos segredos do teu manto, Entre os dedos escorregam teus cabelos, Preso pela paixão dum pranto Agarro-me à âncora dos medos; Ergo o mais alto mastro, Esqueço a terra sentida, Já de porão basto Oiço o sino da partida; E de popa tocada Pelo fado chorado, Levo na memória salgada, A tua culpa, perdoado! por Filipe Cortesão 0707EZ20

PORTUGAL DOS ISMOS

         Atualmente assistir e compreender determinados ciclos da sociedade, com o fácil acesso à informação, torna-se mais rápido e encontra-se ao alcance de todos nós. Compreender os fenómenos na origem desses períodos comportamentais já poderá ser tarefa de menor alcance e apenas possível a alguns de nós. Desafia-se assim uma reflexão, a cada um dos leitores, no intuito de intimamente procurarem identificar alguns dos caprichos cíclicos que interferem com o seu dia-a-dia, direta ou indiretamente.             Podemos chamar a esses cismas e frenesis, tão somente de “ismo” ou “ismos” e transportá-lo no bolso das calças, como que uma pequena pedra, alcunha alentejana, nome do meio, praxe, clipe, ou mero acessório de fácil recurso, um isqueiro, para aplicar sem dó nem piedade aos vícios adjectivantes que deixam cada um de nós perplexo com as teimosias sociais que nos ferem o espírito do...